É fundamental compreender que uma proposta de intervenção sem agentes bem definidos fica vaga e genérica, o que prejudica diretamente sua pontuação. Os corretores do ENEM avaliam criteriosamente se o estudante sabe especificar quem vai executar o quê, com que recursos e de que forma. Por isso, dominar os agentes da proposta de intervenção não é apenas uma técnica, mas uma necessidade estratégica.
Por que especificar agentes é tão importante?
Na lógica de avaliação da Competência 5, a especificação de agentes demonstra que o candidato compreende o funcionamento das instituições sociais e governamentais. Mostra que ele não está apenas sugerindo soluções abstratas, mas pensando na viabilidade prática das medidas.
Um erro comum é usar termos genéricos como “o governo”, “a sociedade” ou “as autoridades” sem especificar qual instância ou órgão seria responsável. Isso enfraquece a proposta e indica falta de conhecimento sobre como as políticas públicas são implementadas na realidade.
O macete GOMIFES: seu guia definitivo
O GOMIFES é uma sigla mnemônica que facilita a memorização dos principais agentes disponíveis para sua proposta de intervenção. Cada letra representa um tipo de agente que pode ser utilizado conforme o tema e o contexto do problema. Vamos detalhar cada um deles:
G – Governo
O governo é o agente mais amplo, mas deve ser sempre especificado em suas diferentes esferas e poderes:
- Poder Executivo: Presidente da República, governadores, prefeitos e seus respectivos ministérios/secretarias
- Poder Legislativo: Congresso Nacional, assembleias legislativas, câmaras municipais
- Poder Judiciário: Supremo Tribunal Federal, tribunais regionais, varas especializadas
- Especificar ministérios: Ministério da Educação, Saúde, Meio Ambiente, etc.
- Autarquias e agências: ANVISA, IBAMA, INEP, entre outras
A chave aqui é a especificação. Em vez de dizer “o governo deve criar leis”, prefira “o Congresso Nacional, por meio de projeto de lei, deve estabelecer…”.
O – Organizações não governamentais (ONGs)
As ONGs são agentes fundamentais em temas sociais, ambientais e de direitos humanos:
- Organizações de defesa de direitos humanos
- Entidades ambientais e de preservação
- Associações de proteção à criança e ao adolescente
- Coletivos e movimentos sociais organizados
- Fundações e institutos privados com atuação social
Essas organizações frequentemente atuam em parceria com o poder público ou preenchem lacunas onde o Estado não alcança.
M – Mídia
A mídia como agente tem papel educativo, fiscalizador e de conscientização:
- Emissoras de televisão e rádio
- Jornais e revistas impressos e digitais
- Portais de notícias na internet
- Criadores de conteúdo digital (influenciadores)
- Produtoras culturais e educativas
A mídia pode promover campanhas educativas, denunciar irregularidades ou criar programas de conscientização sobre diversos temas.
I – Indivíduos e famílias
Os indivíduos e núcleos familiares são agentes importantes em temas comportamentais, educacionais e de saúde:
- Pais e responsáveis no contexto familiar
- Cidadãos em sua atuação individual
- Consumidores em suas escolhas de consumo
- Eleitores em suas decisões políticas
- Profissionais em suas práticas cotidianas
Muitas propostas podem envolver mudanças de comportamento ou atitudes pessoais como parte da solução.
F – Família (como instituição)
A família como instituição social tem papel específico em diversos temas:
- Educação de valores e formação cidadã
- Proteção e cuidado de crianças e adolescentes
- Suporte emocional e psicológico
- Transmissão cultural e tradições
- Socialização primária dos indivíduos
Diferente do indivíduo, aqui se enfatiza o papel institucional da família na sociedade.
E – Escola
A escola como agente é central em temas educacionais, sociais e de formação:
- Instituições de ensino públicas e privadas
- Professores e equipe pedagógica
- Gestores escolares (diretores, coordenadores)
- Universidades e centros de pesquisa
- Secretarias municipais e estaduais de educação
A educação formal tem papel transformador em praticamente todos os temas sociais relevantes.
S – Sociedade
A sociedade como coletivo organizado é agente em diversas situações:
- Comunidades locais organizadas
- Associações de bairro e moradores
- Coletivos culturais e artísticos
- Movimentos populares e sindicatos
- Grupos religiosos organizados
A ação coletiva organizada pode pressionar por mudanças ou implementar soluções comunitárias.
Erros comuns na escolha de agentes
Agora que conhecemos os agentes da proposta de intervenção, é crucial identificar os erros mais frequentes cometidos pelos estudantes:
Agentes genéricos demais
Usar termos como “a sociedade deve” ou “as autoridades precisam” sem especificar quem exatamente fará o quê. Isso demonstra falta de conhecimento sobre o funcionamento das instituições.
Atribuir responsabilidades a agentes que não têm competência legal ou prática para resolver determinado problema. Por exemplo, sugerir que uma ONG ambiental aplique multas ou que o Ministério da Educação regule o uso de agrotóxicos.
Superlotar a proposta com muitos agentes
Listar cinco ou seis agentes diferentes para uma única medida, tornando a proposta confusa e pouco plausível. É melhor focar em 1-2 agentes principais e especificar bem suas atribuições.
Esquecer da viabilidade
Propor ações que estão além da capacidade real do agente sugerido, seja por questões orçamentárias, legais ou operacionais.
Boas práticas para aplicar o GOMIFES
Depois de dominar a teoria, é hora de aprender como aplicar efetivamente o GOMIFES na prática:
Análise prévia do tema
Antes de escolher seus agentes, analise cuidadosamente o tema da redação. Pergunte-se: quais instituições estão diretamente relacionadas com este problema? Quem tem competência legal para atuar? Quem já atua nessa área?
Combinação estratégica de agentes
Muitas vezes, os melhores resultados vêm da combinação de diferentes agentes. Por exemplo: o governo cria a política pública, a escola implementa em seu currículo, e a mídia divulga os resultados positivos.
Especificação concreta
Sempre que possível, nomeie órgãos específicos. Em vez de “o governo federal”, prefira “o Ministério da Saúde, por meio do SUS”. Em vez de “a escola”, prefira “as secretarias municipais de educação, em parceria com as instituições de ensino”.
Adaptação ao contexto
O GOMIFES não é uma camisa de força. Use-o como referência, mas adapte os agentes ao contexto específico do seu tema. Alguns temas pedem mais ênfase em certos agentes do que em outros.
Exemplos práticos de aplicação do GOMIFES
Vamos ver como o GOMIFES funciona na prática com exemplos reais de temas do ENEM:
Exemplo 1: Desafios para a educação inclusiva no Brasil
Proposta: Implantação de formação continuada para professores sobre práticas pedagógicas inclusivas.
Agentes GOMIFES:
- G: Ministério da Educação e secretarias estaduais de educação
- E: Universidades públicas para oferecer cursos de especialização
- O: ONGs especializadas em educação inclusiva como parceiras
Exemplo1182: Combate à violência contra a mulher
Proposta: Ampliação da rede de atendimento e proteção às vítimas.
Agentes GOMIFES:
- G: Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos e governos estaduais
- O: ONGs feministas e centros de acolhimento
- M: Mídia para campanhas de conscientização
- S: Sociedade organizada em redes de apoio
Exemplo 3: Preservação do meio ambiente urbano
Proposta: Implementação de programas de coleta seletiva eficientes.
Agentes GOMIFES:
- G: Prefeituras municipais e secretarias de meio ambiente
- I: Indivíduos e famílias na separação do lixo
- E: Escolas para educação ambiental
- S: Associações de catadores de materiais recicláveis
Mitos e verdades sobre os agentes da proposta de intervenção
Existem várias crenças equivocadas que circulam entre os estudantes. Vamos esclarecer algumas delas:
Mito: É obrigatório usar todos os agentes do GOMIFES
Verdade: O GOMIFES é um guia, não uma regra rígida. O importante é escolher os agentes mais adequados ao tema, mesmo que sejam apenas 2-3 deles. Qualidade é mais importante que quantidade.
Mito: Só agentes governamentais são válidos
Verdade: A banca do ENEM valoriza propostas que envolvam diferentes atores sociais. Parcerias entre governo, ONGs e sociedade civil são muito bem vistas quando bem articuladas.
Mito: Propostas com agentes específicos são muito complexas
Verdade: Pelo contrário! Especificar agentes torna sua proposta mais clara e organizada. O corretor entende melhor quem fará o quê, o que aumenta a coerência do texto.
Mito: Não posso citar agentes que já existem
Verdade: Você pode e deve mencionar agentes reais quando pertinente. Propor que o Ministério da Saúde amplie um programa já existente, por exemplo, mostra conhecimento da realidade brasileira.
A escolha adequada dos agentes da proposta de intervenção não afeta apenas a Competência 5. Ela se relaciona diretamente com outras competências avaliadas:
Competência 3: Coerência argumentativa
Agentes bem escolhidos demonstram que você compreende as causas do problema e pensa em soluções viáveis, reforçando a coerência do seu raciocínio.
Competência 4: Coesão textual
A apresentação clara e organizada dos agentes contribui para a fluidez do texto, especialmente na conclusão.
Conhecimento de realidade
Mostrar familiaridade com instituições brasileiras revela repertório sociocultural, algo valorizado implicitamente na correção.
Exercícios para praticar o GOMIFES
A prática é essencial para dominar a técnica. Sugerimos estes exercícios:
- Escolha 5 temas antigos do ENEM e para cada um liste 3 agentes do GOMIFES que poderiam atuar
- Pegue uma proposta genérica (ex: “deve haver mais educação”) e reescreva-a especificando agentes concretos
- Crie combinações criativas de agentes para temas difíceis
- Analise redações nota mil e identifique como os agentes foram utilizados
- Pratique escrever propostas completas com agente, ação, meio e finalidade
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